El sueño- La cama 1940- Frida KahloHoje resolvi ir ao sótão fazer uma faxina. Nunca vou lá, o lugar me dá arrepios.
É como todo mundo faz, vai juntando coisas lá, fica de arrumar depois e nunca volta. Depois de algum tempo, só de lembrar o que há por fazer, desanima.
Mas hoje é diferente, estou preparada para o que virá. Tem coisas que a gente finge não ver mas, intimamente, calcula a dimensão.
A porta tava emperrada pelo pouco uso, entrei. Que bagunça, cheira mal...
Havia muita coisa espalhada pelo chão. Era impossível andar ali. O jeito foi olhar coisa por coisa para ir abrindo caminho.
Em meio a tantos embrulhos, de todos os tamanhos, começei pelos menores.
A primeira caixinha, envolta em papéis de embrulho com motivos infantis. Isso deve ter uns 35 anos, minha nossa!
Lá dentro estava eu, contrariada, chorando.
Era 1977 e não fui eleita a 1ª prenda da escola, meus pais não foram suficientemente ricos ou bastante engajados para amealhar a maioria dos votos.
Pior que isso, havia um lembrete, dentro da tal caixinha. Ele dizia que: quando a eleição só considerava os atributos físicos das candidatas, eu também não ganhava.
É verdade. Nem sabia que ainda guardava isso aqui, pra quê, porquê?
Sendo capaz de olhar para mim, agora, do modo como sou, reconheço que não houve injustiça. Vai fora, essa caixa de lamento!
Nesse momento, já consegui acomodar melhor o pé no chão, abriu-se um pequeno espaço no apertado e fétido cômodo.
Olho na direção do outro pé. Lá está uma outra caixa. Vou abrir... essa é das grandes, pela poeira que acumula deve estar aqui, há muito tempo. Vejam só, estou abraçada a um diário. Desses que as meninas escrevem suas coisas íntimas. Minhas primeiras confissões, talvez. Estava com o cadeado arrombado. Eu choro.
O que teria acontecido?
Revirei melhor o pacote para tirar o pó da memória e lembrei o motivo do pranto. Minha mãe havia rebentado o cadeado e lido minhas coisas e eu chorava de ódio de mim.
Engraçado, pensei que tinha guardado essas caixas todas em um só baú, bem grande, que chamei de “um milhão de motivos para odiar você, mãe”. Como veio parar aqui, na entrada, empatando a porta do sótão?
Essa não vou jogar fora, deixo aqui, em cima dessas outras e depois reacomodo todas, novamente, dentro do baú. Vou mudar essa etiqueta, melhor chamar de “lembranças da mãe que tive“. Assim fica melhor!
Ahhh, e não posso esquecer de passar um paninho nessas caixinhas, estão pegajosas como visgo. Difícil desgrudar delas.
Esse novo jeito de acomodar velhas lembranças me deixou mais confiante para continuar a faxina, sinto a planta dos pés tocando o chão e aos poucos o corpo acha um novo ponto de equilíbrio. Me movo com mais facilidade em meio a tantos pacotes, caixinhas e embrulhos diversos.
Reconheço, com alguma dor e certo alívio, que não vou chegar ao ponto mais profundo desse sótão. Não há boa visibilidade em seus cantos agudos, a luz é pouca, para tanto.
Isso não me incomoda, é um sótão. Aqui, a vida já foi vivida, não tem muito que fazer.
Entre distintos objetos, chama minha atenção um certo bercinho. Debaixo de muita poeira e crosta, percebo que é um berço finamente decorado, estilo rococó. Por que isso está aqui, de quem é? Já “passei a diante” os utensílios de bebê que foram dos meus filhos, sempre faço isso logo que deixam de servir.
Me aproximo do berço. A impressão que tenho, a medida que me aproximo, é de que continua ali, a espera de um bebê que não veio. Ao seu redor, álbuns de fotos que nunca foram tiradas, lembrancinhas nunca distribuídas, um chocalho que nunca saiu do plástico.
Nesse momento, ouço ecos de diálogos que nunca ousei ter com ninguém. Uma voz pergunta:
- Quem é esse bebê lindo e saudável, nesse berço forrado?
E me escuto responder:
Esse é o bebê que sonhei ter e nunca nasceu... teve mil nomes e tinha o rostinho feliz de todos os bebês das revistas.
Os soluços do choro me trazem de volta à realidade e fazem coro com esse lamento que, por não ter nascido, nunca pode ser sepultado.
Esse bercinho está aqui, desde quando, adolescente, sonhei com a vida que teria, só que a vida – vivida - não pode me reconciliar com essa imagem perdida.
Olho para ele e percebo que é tão somente um brinquedo de criança e, talvez, minha filha o queira para suas brincadeiras de faz-de-conta. Ela, certamente, se encarregará de dar fim a ele. É o destino inexorável dos brinquedos.
Abriu-se mais espaço, um sopro de brisa leve percorre o ambiente. Se minhas pálpebras fossem cortinas, a cada piscar de olhos, deixariam entrever melhor o que há além da janela, que se abriu agora.
Conquisto um novo centro de equilíbrio e um novo peso para estrear novas piruetas, agora, o meu corpo é de baile.
A idéia de sair valsando me faz lembrar que, em algum lugar, por aqui, está um vestido de noiva. Ainda está em fase de “provas” , toda vez que penso em terminar, o meu manequim já mudou (risos). Melhor deixar onde está.
Vou terminando essa faxina, juntando uma dezena de fotos minhas, espalhadas pelo chão. Me achava tão avassaladoramente horrível que nunca as coloquei em álbum nenhum.
Sinto uma certa nostalgia vendo, nas imagens refletidas, que meus olhos não me olhavam com amor.
É fato. E, em decorrência disso, a foto mais recente, mesmo odiada, era, sempre, melhor que a última. E, assim, passaram-se vários filmes, sem que tivesse cuidado algum com a moça da foto.
É a mim que estou juntando em cada foto rejeitada e posso, senão mudar esse olhos que me fitam, olhá-las com a devida ternura. Eu amo quem fui, com o amor que se tem por aquilo que se conhece. Um amor que pode, se, perdoar.
Nesse instante, uma velha caixinha de música, exibe a bailarina a girar. Onde estava isso? Meu pai perdeu você em um avião, vindo de Manaus.
Olho, então, na direção de uma estante, onde guardei todos os presentes que meu pai me deu. Em meio a bagunça desse sótão, eles resistem lá, estrategicamente dispostos.
Quando criança, aninhada em seus braços, conversávamos, por horas, sobre os brinquedos que perdeu pelo caminho e o conjunto “Lee” que ele via nas lojas e nunca teve dinheiro para comprar. Descrevia com tal perfeição e riqueza, os detalhes desses “mimos”, eu os sentia tão meus, que vieram parar aqui, embalados pela magia desses momentos.
A caixinha insiste em fazer escutar sua música, a bailarina rodopia sem parar... Alí, bem ao lado, jaz o velho espelho que eu trouxe dos contos de fadas para me mirar.
Quantas perguntas sem respostas, espelho meu? Pela última vez vou indagar.
-Quem sou eu?
Ele responde:
Você não foi rainha, princesa, nunca foi “a” melhor;
Você foi só você, mesmo quando não quis ser.
E aos trancos e barrancos, chegou até aqui
Sou eu quem te pergunta
É, ou não é, um prazer se conhecer?
É espelho, é bom ver que você, agora, me reflete. Finalmente, achei - a minha - resposta certa. Não é um “felizes para sempre” mas, é um bom começo.
Se aproxima o intervalo da faxina, porque ela nunca estará terminada. Já posso caminhar em meio as minhas lembranças, ora chorando, ora sorrindo. Esse é o meu território, há ninguém é dado vir aqui. Somente eu conheço a água que brota do fundo desse poço.
Caminho em direção à porta. Cada passo meu tem 39 anos de andar. Me permito o distanciamento, com olhares de “até breve”.
Ao lado da porta há um pequeno quadro, não havia percebido quando entrei.
Está torto, preciso fazer um reparo. Inclino para a esquerda, um pouco mais à direita.
Um passo atrás e confiro, está aprumado!
Ficou bem, agora, lê-se melhor a pequena inscrição.
Perto, bem perto, para ler o escrito alí: “Mãe... já posso te conceber como és”.
Fecho a porta. Vou partir.
Minha vida me quer e eu a ela.